Lih Petrus by Marcus Fam


01/12/2006


A amiga de Isaac

Na janela do meu quarto observo as pessoas caminhando no final da tarde no calçadão. Alguns caras jogando voley na quadra, crianças brincando no parquinho acompanhadas pela mãe ou provavelmente babá, as meninas passando de bicicleta e sempre o mesmo cachorro a passear sozinho entre as pessoas e às vezes aparentemente parava para me olhar lá de baixo. Ao fundo, logo após o manguesal, o Rio Sergipe  com suas águas tranquilas refletindo os últimos raios de sol que o alcançavam. Na avenida percebo Isaac chegando no corsa preto a poucos dias emplacado. Antes de entrar com o carro no condomínio, achei ter o visto buzinar e aquele cachorro latir como resposta, pular e abanar o rabo, demonstrando alegria. Após alguns minutos ele chega no apartamento e vai direto bater na porta do meu quarto, entrando em seguida.

Era a última sexta de minhas férias e até então eu não havia saido para nenhuma balada. Eu curto a noite, mas desde que chegara em Aracaju eu não tinha vontade. Diferente de mim, todas as sextas são sagradas para Issac, e todas às vezes o cara me chamava. Desta vez não foi diferente:

- Poxa Lih, as férias todas e você não se divertiu nem um pouquinho! Vamos hoje comigo?

Pela primeira vez eu aceitei. E essa aceitação me fez surpreender com a expreção de grande satisfação em Isaac, que após combinarmos o horário, saiu do quarto quase que salteando.

Voltando para janela, o cachorro desta vez se encontrava bem na direção do prédio, olhando fixamente para mim. Depois de uns minutos, vejo Isaac saindo do condomínio, atravessar a avenida, chegando no calçadão, na direção do cachorro que já havia voltado a latir, a pular e abanar o rabo. O mané me pareceu oferecer algo para o cão, agora lambendo sua mão. E após Isaac dá uma esfregada nos pêlos de sua cabeça e costas, o animal saiu correndo demonstrando felicidade maior que antes.

Depois da cena, quando Isaac voltou ao apartamento. Questionei de quem era ou de onde ele conhecia aquele cachorro. Ele responde em tom de gozação:

- Aquela cadelinha é uma amiguinha que eu fiz pela rua. Não sei de quem é, mas acho que tem dono sim, por ser bem tratada. Então? Vamos nos cuidar para sairmos?

Confirmei em silêncio com a cabeça e erguendo os ombros, deixei o assundo de lado.

 Lih Petrus

Escrito por Marcus Fam às 11h36
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27/11/2006


Isaac conhece Petrus.

Durante esse final de férias, Isaac me monstrou um pouco da cidade nos raros momentos que desejei sair para fazer compras. Detestei os shoppings daqui. Além de serem apenas dois, são muito pequenos. A maior parte do tempo eu preferi ficar no apartamento, reclamando e matando a saudade com os meus pais pela webcam através do msn.

Isaac toda sexta vai para a balada e tenta me levar. Mas é claro que eu não vou dar confiança. Sei que não é meu empregado, só que eu nem o conheço direito, pô! Já me assusto com o quanto ele sabe sobre mim. Sem me perguntar do que eu gosto, manda sempre a cozinheira fazer os meus pratos preferidos, principalmente nos domingos.

Além disso, deixei minha guitarra no Rio. A minha banda até então continuará tocando sem minha presença, mas o meu lugar sei que me aguarda. Não pretendo tocar por aqui em outra banda, mas Isaac na última quarta me presenteou com uma guitarra novinha. Agradeci por educação e larguei ela em um canto de uma das paredes do meu quarto. Só não está mais empuerado a capa preta que a guarda porque a empregada sempre passa uma franela por cima rapidinho.

E assim, vou levando as minhas férias viajando pela internet, conversando também com os meus amigos. Resta uma semana para as aulas começarem. Uma eternidade para mim!

Lih Petrus

Escrito por Marcus Fam às 11h51
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Seja Bem vindo, Petrus.

31 de outubro de 2005, completei 15 anos. Eu pensava que o meu presente de aniversário seria uma viagem para o exterior nas minhas férias. E realmente foi uma viagem. Não para fora do Brasil, mas para fora do Rio de Janeiro. Meu pai me antecipou:

- Filho, você no prôximo ano irá para Aracaju.

Até aí, tudo bem. Depois completou:

- Fique tranquilo, já reservei sua matrícula num bom colégio.

Péssima notícia! Nunca pensei morar algum dia fora do Rio. Ainda mais para um lugar que eu nunca havia estado antes. Tão pouco pensei que ficaria longe dos meus pais. É isso mesmo que você está pensando! Meus pais ficaram e eu, no dia 13 de janeiro de 2006, sexta-feira, desembarquei em Aracaju.

Meu tutor me aguardava. Não foi preciso utilizar aquelas placas com o nome para identificação, como de costume. Ele de longe me reconhecera, como se já houvesse me visto antes. Seu nome é Isaac Criscuolo*. Um psicóloco italiano de apenas 25 anos. Sua altura deve ser aproximadamente 1,80, magro, cabelos loiros e lisos. Os óculos que usa parece nunca se ajustar no seu rosto. Seus olhos são azuis como os dos meu pai. Aliás, o coroa havia me dito que ele é filho de um grande amigo e que Isaac está morando no Brasil por questões de trabalho.

Ao ir ao meu encontro com um largo sorriso aparentemente espontâneo, o jovem psicólogo se apresentou apertando a minha mão:

- Seja bem vindo, Petrus! Sou o seu tutor, Isaac Criscuolo. - Logo após, o homem tenta concertar os óculos no rosto. -  Saiba que muito além disso, estou aqui para ser o seu amigo, garoto.

- Garoto? Eu não estou vendo nenhum garoto por aqui! E amizade? Cara, é complicado! É melhor pararmos com essas apresentações antiquadas e você começar a me ajudar com essas malas, ok?

Isaac calado ficou, mas continuou com um sorriso no rosto como uma forma de ignorar o que eu acabara de dizer. Com as minhas malas nas mãos, caminhamos até um corsa preto, do ano e ainda nem emplacado, parado no estacionamento do aéroporto. E assim começa a minha história na capital sergipana: ARACAJU.

Lih Petrus

*inspirado em um amigo chamado Isaque Criscuolo.

Escrito por Marcus Fam às 10h30
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